18 de março de 2008

A Viagem do Veterano

Hoje fui acordado com a notícia de que a Tristeza havia coberto o Rio Grande com seu manto cinza. A Morte não tem pressa, ela vem de repente mas te dá tempo para sentir o Amargor, o Vazio e a Impotência, antes de cobrir tua alma de breu.

Hoje eu soube que Antonio Augusto Brum Ferreira fez sua última viagem. E eu nem sequer posso estar ao lado da sua querida Letícia, de seus amados filhos, juntar-me fisicamente ao incontável número dos que pranteiam sua partida. A distância é larga demais para o corpo, mas meu coração sempre esteve com ele.

Hoje eu estou de luto! Por favor, não falem comigo nada além do necessário, porque eu quero sentir a dor da perda. Eu, que tive a honra de ser seu aluno e colega; eu, que fui brindado com seus ensinamentos, a tal ponto que me dou conta que já não consigo fazer uma palestra ou dar uma aula sem citar seu nome – ainda no sábado, reunidos em Capão da Canoa, reparti com umas três centenas de colegas uma das tantas preciosas lições que dele aprendi; eu, que por bondade daquele imenso coração, tive a honra e o inenarrável prazer maior de ser chamado de seu irmão.

O Veterano partiu numa tardinha de março, já saudando a estrela boieira em sua viagem. Certamente vai dar uma passadinha no Rincão do Inferno, que de inferno só tinha o nome, ver como estão as cousas lá na fazenda. E depois vai para o Céu, preparar o terreno para os amigos, esquentar a água e botar um costilhar no fogo.

O Antonio nem precisava ser membro da Academia para ser imortal, porque isso ela já era em nossos corações.

Ah, o Antonio Augusto: por trás daqueles olhos miúdos havia tanto mundo que nem parecia nele caber. Por trás daquele corpo aparentemente frágil, havia um gato selvagem, com seu sorriso de topar parada e voz de calmaria no perigo.

Ah, a Letícia: que esposa devotada, que mulher inteligente, sensível e bonita. Tinha bom gosto, o Antonio. E amavavam-se, num amor quase épico, que me levava a vê-los como Ulisses e Penélope.

Há tanto para dizer mas meu coração apertado só quer sentir, não quer falar.

Agradeço a Deus porque um dia ele botou o Antonio neste mundo, um farol que alumiava na escuridão, um porto seguro para o navegante cansado, um Exemplo, assim mesmo, com letras maiúsculas, porque olhando agora o passado, parece que toda a sua vida foi feita de superlativos.

Deixarei para os poetas, imortais como ele, cantarem sua proezas, versejarem sua vida. Eu, que aqui fico abestalhado com essas coisas que, a gente sabe, acontecem e sempre vão acontecer, reparto com seus amigos um pouquinho do seu saber.

Mario Pazutti Mezzari

Vou para fora

De: Antonio Augusto Brum Ferreira

Amanhã cedinho vou para fora,
resolvi largar tudo,
parar um pouco desta correria.
Já anda em mim uma inquietude ansiosa
porque amanhã cedinho vou pra fora.

Foi decidir que ia e uma alegria
chegou assim de manso,
como quem chega em férias num lugar.
Arrumo as bombachas e um chinelo,
que a paz do campo veio me buscar.

Já mandei um recado pelo rádio:
agarrem meu cavalo,
me esperem na estação,
que eu vou partir.
Minh`alma meio calma e meio ansiosa
vai virar esta noite sem dormir.

Atenção, meus cerros e canhadas,
meu grito de rodeio
vai andar varrendo esse rincão.
Amanhã cedinho vou pra fora,
mal pode esperar meu coração.

É sempre assim, esta desinquietude,
esta paixão que estou sentindo agora.
A fantasia de volver menino
me assalta cada vez que vou pra fora.

Alô, querência, eu já estou aí,
minh`alma vai na frente,
chega antes de mim.

Quem muda o pago, o coração não muda;
saudade é dura e a querência gruda.

Quem troca o campo pela cidade
leva junto o campo, nessa saudade.

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