22 de setembro de 2020

Clipping – Nexo Jornal – Por que o setor imobiliário acelerou na pandemia

Crédito para compra ou construção de imóveis cresce com juros em patamar baixo. Vendas da atividade têm melhor ano desde 2014

A economia brasileira passava por um período de recuperação lenta, sem superar plenamente a recessão de 2014 a 2016, quando foi atingida pelos efeitos da pandemia do novo coronavírus. O PIB (Produto Interno Bruto) do segundo semestre de 2020 registrou o pior resultado de sua série histórica.

O setor imobiliário brasileiro – que já havia sido atingido pela recessão anterior –, porém, dá sinais mistos diante do novo abalo. Por mais que não tenha escapado do tombo nos primeiros momentos, apresenta uma recuperação acelerada, até superando números de anos anteriores.

Os lançamentos em baixa

Os efeitos da pandemia apareceram principalmente nos números dos lançamentos de unidades. De acordo com dados da Abrainc (Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias) e da Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas), os novos lançamentos recuaram 21,2% no primeiro semestre de 2020 na comparação com o mesmo período do ano anterior.

No mês de maio, por exemplo, foram lançados apenas 1.703 novos imóveis, o pior mês desde abril de 2016, quando o país estava em recessão.

Os dados dos lançamentos de imóveis vão na mesma direção dos números revelados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) sobre a construção no Brasil. O setor construtor registrou queda de 5,7% entre abril e junho, na comparação com os primeiros três meses do ano.

As vendas em alta

Apesar de os números de lançamentos imobiliários estarem em baixa, as vendas de imóveis vão no sentido contrário. Segundo a Abrainc e a Fipe, as vendas no primeiro semestre de 2020 foram as maiores para o período desde 2014 – período em que o Brasil começava a entrar em recessão.

Foram mais de 61.600 imóveis vendidos entre janeiro e junho, o que representa um crescimento de 10,6% em relação aos primeiros seis meses de 2019. O mês de maio foi o melhor desde março de 2015, com 12.707 imóveis vendidos.

Os juros baixos no Brasil

A aceleração das vendas de imóveis em um momento de pandemia e grave crise econômica parece ser algo contraintuitivo. Mas o movimento está ligado aos patamares baixos dos juros brasileiros em 2020.

A taxa Selic é a taxa básica de juros da economia brasileira. Ela serve de referência para a definição dos juros cobrados pelos bancos em empréstimos, o retorno de títulos do Tesouro e até o rendimento da caderneta de poupança.

Em setembro de 2020, a taxa Selic está em 2% ao ano – mesmo patamar desde o início de agosto. É o menor patamar desde 1999, quando o Banco Central adotou o regime de metas de inflação. Por servir de referência para o restante da economia, a Selic também impacta os juros e o crédito no setor imobiliário.

Com a taxa de juros em baixa, fica mais barato tomar um empréstimo no banco para comprar uma casa. Pagar os juros de um financiamento de imóvel pode ter se tornado mais vantajoso do que pagar o aluguel a cada mês. Ao mesmo tempo, a construtora também consegue crédito a uma taxa mais baixa para financiar um novo empreendimento imobiliário.

O crédito imobiliário em 2020

O crédito imobiliário de fato respondeu à queda histórica dos juros no Brasil. Em 2020, não apenas o crédito teve recuperação rápida após o choque inicial da pandemia, como ultrapassa o nível de anos anteriores.

O número de imóveis que obtiveram financiamento – seja para compra ou construção – caiu 15,2% entre janeiro e abril, mas voltou a crescer depois disso, como mostram os dados da Abecip (Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança). O ritmo de crescimento foi acelerado, e em julho, mas de 36.800 unidades foram financiadas. Foi o melhor mês desde abril de 2015.

O dinheiro movimentado em crédito imobiliário também cresceu. Os valores para os primeiros sete meses do ano são os maiores desde 2014.

O crédito imobiliário acelerou a partir de maio. O mês de julho foi o primeiro em que o crédito do setor ultrapassou R$ 10 bilhões no Brasil desde julho de 2014. Na série da Abecip, iniciada em 2002, o único mês em que mais dinheiro foi movimentado foi junho de 2013, alguns meses antes da recessão que atingiu o país.

Mesmo com a alta do crédito, os preços de imóveis seguem crescendo a ritmo baixo. De acordo com índice medido pela Fipe em parceria com o portal Zap, os preços acumulam alta real (descontada a inflação) de 1,11% nos primeiros oito meses de 2020. No acumulado de 12 meses, no entanto, a variação real dos preços equivale a um recuo de 0,92%.

Outros movimentos na demanda

Além da alta do crédito imobiliário, os juros baixos também ajudam a impulsionar o mercado imobiliário de outra forma. Com a Selic em baixa, os investimentos de renda fixa cujos rendimentos estão atrelados à taxa básica de juros da economia estão cada vez menos atrativos.

Uma das alternativas para conseguir rendimentos é a compra de imóveis para cobrar aluguel. Assim, para quem tem dinheiro guardado ou que tem bom acesso ao crédito imobiliário, os imóveis tornam-se uma opção de investimento mais rentável frente à renda fixa na pandemia.

Outro movimento observado é o aumento da procura por imóveis longe das grandes cidades. Com muitas pessoas ficando em casa durante a pandemia, cai a necessidade de morar perto do trabalho. Esse movimento está ligado principalmente à parcela da população com alta renda, que busca maior conforto e espaço em imóveis de alto padrão no interior.

 

Fonte: Nexo Jornal. Foto: Rahel Patrasso