4 de março de 2008

Que nome darei ao meu filho?

Alguns cuidados devem ser observados para que a pessoa não passe por constrangimentos futuros
Déa Januzzi

Davi, “o amado”; as gêmeas Lívia, que significa “lívida, pálida” e Luísa, “feminino de Luís”, que quer dizer “guerreiro famoso”, além de Gabrielly, do hebraico Gabriel, “o enviado de Deus”, vieram ao mundo no fim de semana passado, no Hospital Mater Dei. Independentemente da grafia, de uma ou outra letra dobrada, de um “y” no lugar do “e”, os bebês receberam dos pais um nome que será, para o resto da vida, um rótulo de identificação social, “a marca da individualidade que, de alguma forma, transmite um adjetivo abstrato ao portador. É um atributo voluntário escolhido, ou melhor dizendo, imposto pelos pais aos filhos, e que pode até abrir ou fechar portas durante sua caminhada”, diz Regina Obata, autora de O livro dos nomes, edição do Círculo do Livro, de 1986.

Patrícia Helena e Vimar Araújo de Souza, pais das gêmeas recém-nascidas, por exemplo, tiveram todo o cuidado na hora de escolher o nome das filhas, para evitar transtornos futuros. Como ocorre com Vimar, que a todo momento tem que retificar seu nome em documentos e cartões de crédito e vive atormentado por perguntas. “Eles escrevem meu nome sempre errado, acrescentam letras e não se contentam quando digo que é desse jeito mesmo. Não é Alvimar? Avilmar? Vilmar?”, insistem.

O juiz da Vara de Registros Públicos do Fórum Lafayette, Fernando Humberto dos Santos, lembra que o nome “é uma diferenciação do indivíduo na sociedade, uma referência. Evidentemente, a pessoa vai adotá-lo pela vida inteira, o que pode ser um peso, como também motivo de orgulho. Se antes, o costume das famílias tradicionais era dar nomes de antepassados importantes aos filhos, netos e bisnetos, hoje, com a globalização, as pessoas têm acesso a nomes extravagantes”. Um dos indeferidos pelo juiz e depois pelo Ministério Público foi o de uma criança que iria se chamar Anacitelta. A explicação não convenceu os magistrados: o nome da menina escondia a paixão por um time de futebol – Anacitelta nada mais é do que a inversão da palavra atleticana.

A numeróloga paulista Maria Orlanda Furlanetto também garante que “o nome é o capital mais precioso de uma pessoa, portanto, é importante escolher conscientemente, bem antes do registro civil. Todo bebê recebe um nome que determina seu ego individual. Somado ao sobrenome da família, ele formará o ego social. Na hora de escolher o nome, os pais não podem pensar apenas se os agrada ou não. Eles devem tomar o cuidado de fazer com que o nome, combinado com o sobrenome, resulte num número positivo, que garanta saúde, felicidade, beleza, inteligência e sucesso”.

Marca registrada

O nome é o que diferencia as pessoas na sociedade, uma referência para o resto da vida

O incômodo com certos nomes pode chegar ao extremo de ter que apelar para a Justiça. É o caso de Marciano, que constituiu advogado e abriu processo para mudar de nome. Na audiência com o juiz Fernando Humberto, na Vara de Registros Públicos do Fórum Lafayette, o requerente disse que gostaria de se chamar Mariano, pois o outro nome era motivo de piadas. O juiz retrucou que Marciano não era um dos piores nem tão constrangedor. Ao que ele respondeu: “Porque não é para o senhor que perguntam se veio de Varginha, se foi de disco voador e se esqueceu as antenas em casa”. O juiz acatou imediatamente o pedido de mudança de nome e, hoje, Marciano se chama Mariano e vive mais feliz do que antes, quando se sentia o próprio ET de Varginha.

Mudar o nome, porém, não é tão fácil quanto parece. Só podem ser substituídos quando causam constrangimento ao portador, por homonímia, pessoas que tenham nomes idênticos e que levam a confusões jurídicas e econômicas, e também em casos de proteção a testemunhas, quando uma pessoa pode mudar. “Lembrem-se de que é preciso um advogado, já que a mudança é um processo judicial, para comprovar os prejuízos até psicológicos a que estão submetidos por causa de um determinado nome.”

No processo, o indivíduo vai demonstrar que a mudança de nome não traz nenhum prejuízo de identificação social. “Alguém que está com mandado de prisão decretado, jamais poderá requerer mudança de nome. Por isso, é preciso apresentar certidões negativas de processos cíveis, criminais e de protestos, já que o Ministério Público atua em defesa do interesse da sociedade pela manutenção do nome”, explica o juiz da Vara de Registros Públicos. Em 90 dias, o cidadão pode conseguir um novo nome, se não houver indicações contrárias, mas tem que pagar cerca de R$ 1 mil com as custas do advogado, e R$ 100 no Fórum.

A Lei 6.015, de 1973, estabelece que os cartórios de registro civil não podem aceitar nomes que causem constrangimentos futuros a seu portador. Nesses casos, o cartório envia o pedido de registro para o juiz da Vara de Registros Públicos, que pode indeferi-lo ou não. “Geralmente, pesquisamos nomes que não conhecemos pela internet, consultamos se a grafia está correta ou não, a etimologia, entre outros pontos que vão interferir na decisão. Às vezes, um nome é estranho no Brasil, mas é comum em Israel, então queremos saber se a descendência é judia.”

Outra tendência hoje é rejeitar nomes indígenas, pois os cartórios descobriram que as pessoas têm registrado seus filhos dessa forma, para participar das cotas nas universidades e de empregos públicos. “É claro que se a pessoa comprovar que tem afinidade com o nome, ele será aceito pela Justiça.” O próprio juiz conta que já permitiu que os pais pusessem o nome na filha de Mixele, com “x”, contrariando as regras ortográficas. “Eram pais muito bem informados e que consultaram uma numeróloga antes do registro civil.”

Outros nomes que podem ser vexatórios são aqueles feitos por composições. “Parte do nome do pai, parte da mãe, invenções que, no futuro, não vão corresponder à intenção da escolha, como, por exemplo, Andrehel (nome composto por Andréa e Hélio), entre outros absurdos que são indeferidos quase todos os dias no Fórum”, argumenta.

ACEITAÇÃO Certas pessoas, porém, sabem conviver bem com nomes diferentes e dão a volta por cima, cumprindo uma trajetória de sucesso. Como Ilveu Dias, ginecologista e especialista em reprodução humana. A história do nome dos 14 irmãos começa com a espera do primogênito. O pai, Romeu Ildeu Dias, já tinha escolhido o nome de Ildeu, quando nasceu uma menina, que então se chamaria Ildéa. Desde então vieram Ilveu, Ilseu, Ilmeu, Ildeu, Ilfeu, Ilzeu e Ilgeu. Depois de Ildéa nasceram Ilméa, Ilvéa, Ilnéa e Ilgéa.

Ilveu gosta do seu nome e nunca teve dificuldades nem constrangimentos. “Desde criança entendi que era um nome diferente, mas nunca quis mudá-lo. Não é um peso para mim, nem incomoda. Assim como todos os meus irmãos, alguns, inclusive, já se foram, mas sempre entenderam a inspiração de meu pai, apesar de minha mãe nunca ter concordado”, constata.

Só para ilustrar, o juiz Fernando Humberto conta a história do próprio irmão, já na casa dos 60 anos e que a vida inteira teve de conviver com o nome Sócrates. Com o texto do irmão em mãos, ele lê: “Quando nasceu, meu irmão mais velho, que sempre foi o protegido da casa, ganhou dois nomes bonitos: Fernando Humberto. Humberto, em homenagem ao escritor Humberto de Campos, que era admirado tanto pelo meu pai quanto por minha mãe. Fernando, porque era o nome da moda. Aí, quando nasci, meu pai, que gostava muito de história, cismou que eu deveria me chamar Sócrates.”

A tia Maria Mourão, irmã mais velha da mãe, veio em seu socorro e propôs que ele se chamasse Carlos Alberto. “Seria legal, um nome imponente, digno de um príncipe ou mesmo de um capitão da Seleção Brasileira de futebol”, diz o texto. “Mas meu pai não cedeu. Foi irredutível e falou: Sabe, meu filósofo preferido nem é Sócrates. Acho que vou dar nome ao menino de Platão. Minha tia abaixou a cabeça e não falou mais nada. Minha mãe, sensata, fechou questão. Pensando bem, acho o nome Sócrates até bonitinho.”

Ele ficou sendo Sócrates e para sua chateação era sempre a mesma ladainha na escola. “Na primeira aula, todo professor me perguntava: ‘Você sabe quem foi Sócrates?’ Eu não sabia nem queria saber. Hoje até sei, mas respondo aos que me perguntam: foi o grande maestro da democracia corintiana.”

Escolha responsável

A responsabilidade de dar nome aos filhos é grande, pois especialistas afirmam que são freqüentes os casos de crianças traumatizadas em função da má escolha. “O nome pode despertar expectativas em crianças que se sentem pressionadas em corresponder, principalmente quando se trata de referências a personalidades cujos atributos estão tradicionalmente incorporados pelos grupos sociais. Também na repetição do nome do pai, do avô, é inevitável a comparação com as características inerentes a essas pessoas”, assegura Regina Obata, em O livro dos nomes.”

Escolher o nome de um filho pode ser uma tarefa apaixonante ou cansativa. A preocupação começa muito antes do nascimento. “Em primeiro lugar, exige-se que o nome tenha um som agradável, qualidades estéticas, ambientais, de significado e até que expresse as idéias políticas e sociais dos pais. Sugestões são apresentadas por parentes, amigos e até desconhecidos. Todos querem opinar. Busca-se, com ansiedade, inspiração na literatura, na tradição, nos calendários dos santos e até nas novelas da televisão”, explica.

Assim que soube que estava grávida, Patrícia Helena passou a pesquisar em vários sites o significado dos nomes, atendendo a alguns critérios: “Que não fosse nome estrangeiro, de difícil escrita, com letras dobradas, do tipo dois ‘eles’ ou difíceis, como “y”, “w” ou “h”, além de ter um significado positivo”. Quando Patrícia e Vimar souberam que estavam esperando gêmeos, foi uma alegria e uma preocupação redobrada na escolha dos nomes. “Achamos que fosse um casal, mas vieram duas meninas, então optamos por Luísa com “s” e acento, que quer dizer luz, e foi escolha de Patrícia”, diz Vimar. Pela sonoridade e leveza, ele escolheu o outro nome, Lívia.

Com a ultra-sonografia em quatro dimensões, eles perceberam quem se parecia com quem: a que tinha o rosto redondo do pai, chamaria Luísa, e a que se parecia com a mãe, Lívia. “Independentemente do nome, desejamos que elas sejam felizes, saudáveis, tenham valores e retidão”, diz Patrícia, que é pedagoga.

CONSENSO No apartamento ao lado, Gabrielly, a terceira filha de Aline Oliveira Bretas e de Felipe Andrade Bretas, acaba de nascer. Aos 24 anos, a mãe já tem Emmanuelly, de 6, e Izabelly, de 1 ano e 2 meses. A mais velha foi a responsável pela escolha, pois queria um irmão, mas quando veio uma menina, ela disse que o nome tinha que ser parecido com o seu. Gabrielly acabou sendo consenso entre a família, já que é feminino de Gabriel, o anjo enviado por Deus para dar à Maria a notícia de que seria a mãe de Jesus. O significado dos outros nomes? A mãe diz com rapidez: “Emmanuelly quer dizer “Deus conosco” e Izabelly, “consagrada por Deus”.

Feliz da vida com o nascimento de Davi, a mãe Rosinere dos Santos tem o significado na ponta da língua. “É um nome bíblico, de um rei escolhido por Deus, para vencer o gigante Golias.” O primeiro presente que ela ganhou da irmã foi um DVD com a história de Davi, que Rosinere pretende assistir junto com o filho, quando ele crescer mais um pouco.

Abençoado, segundo a mãe, Davi já é. Primeiro filho de Rosinere, de 35 anos, e Vicente, de 40, Davi nasceu depois de um namoro de quatro anos e dois de casamento. “Ele foi muito planejado e desejado e atendeu ao meu pedido de nascer só depois que nossa casa estivesse pronta. No dia em que me mudei para a nova casa, tive as primeiras contrações, à meia-noite, – e Davi veio ao mundo.”

Fonte: Jornal “Estado de Minas” – Caderno Bem Viver

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